Muriqui do Norte: o Maior Primata das Américas em Extinção
O muriqui do norte (Brachyteles hypoxanthus) é o maior primata das Américas e um dos mais ameaçados do planeta. Restam cerca de 1.000 indivíduos na natureza, todos concentrados na Mata Atlântica brasileira. Conhecer essa espécie é o primeiro passo para entender por que sua sobrevivência importa.
O que é o Muriqui do Norte?
O muriqui do norte é um primata da família Atelidae, endêmico do Brasil. Vive exclusivamente na Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos e destruídos do mundo. Os povos indígenas tupi o chamam de “povo manso da floresta” — uma referência ao temperamento pacífico e ao movimento característico de se balançar entre as árvores.
Ao contrário da maioria dos primatas, os muriquis do norte não formam hierarquias rígidas nem brigam pela comida. Pesquisadores da área comportamental os apelidaram de “macacos hippies”.
Classificação Científica
O muriqui do norte foi descrito pelo naturalista alemão Maximilian de Wied-Neuwied em 1820. Sua classificação oficial:
- Reino: Animalia
- Filo: Chordata
- Classe: Mammalia
- Ordem: Primates
- Família: Atelidae
- Gênero: Brachyteles
- Espécie: Brachyteles hypoxanthus
Características Físicas
O muriqui do norte é grande para os padrões dos primatas brasileiros. As medidas típicas são:
- Peso: 6,9 kg a 15 kg
- Comprimento do corpo: 46,1 cm a 49,7 cm
- Comprimento da cauda: 72,6 cm a 81,0 cm
A pelagem varia entre amarelo-oliva e tons ferruginosos ou acinzentados, sem padrão uniforme entre indivíduos. A cabeça é arredondada, a face achatada, e os braços são longos. As mãos têm formato de gancho — uma adaptação para se mover pelo dossel sem precisar fechar os dedos com força.
A cauda preênsil é a mais longa entre todos os macacos neotropicais. Mesmo assim, o peso corporal impede que o animal se pendure por ela por longos períodos.
A distinção entre machos e fêmeas é visível: machos são maiores e possuem o escroto pigmentado. Filhotes nascem com coloração mais clara e escurecem com o crescimento.
Comportamento e Vida Social
Os muriquis do norte vivem em grupos mistos de machos e fêmeas, sem dominância hierárquica clara. Essa organização é chamada de fissão-fusão: o grupo se divide e se reagrupa conforme a disponibilidade de alimento na floresta.
Os machos permanecem no grupo natal por toda a vida. As fêmeas, ao atingir a maturidade sexual, migram para outros grupos — um mecanismo natural para evitar a consanguinidade.
São diurnos e passam até 50% do dia em repouso. Cada fêmea tem apenas um filhote por gestação, com intervalo de 3 a 4 anos entre nascimentos. Essa taxa reprodutiva lenta é uma das razões pelas quais a espécie se recupera tão devagar.
Alimentação
O muriqui do norte é principalmente folívoro. A dieta inclui:
- Folhas jovens e maduras (base da alimentação)
- Frutas
- Flores
- Brotos de bambu e samambaias
Uma curiosidade notável é a geofagia: os muriquis ingerem terra para complementar a dieta com minerais como vanádio, alumínio, cromo, ferro e zinco, pouco presentes nos vegetais que consomem.
Habitat e Distribuição
O muriqui do norte vive exclusivamente na Mata Atlântica, concentrando-se nas partes mais montanhosas das florestas de:
- Minas Gerais (maior concentração)
- Bahia
- Espírito Santo
- Rio de Janeiro (menor número)
A preferência por áreas montanhosas oferece alguma proteção natural, mas dificulta o monitoramento e a contagem exata de indivíduos.
Status de Conservação: Criticamente Ameaçado
O muriqui do norte está classificado como Criticamente Ameaçado (CR) pela UICN — a categoria de maior risco antes da extinção. A espécie também consta na lista oficial brasileira de animais ameaçados do Ministério do Meio Ambiente.
Estimativas apontam entre 1.000 e 1.300 indivíduos em vida livre, com menos de 250 adultos maduros em cada subpopulação. É um dos 25 primatas mais ameaçados do mundo.
Em 2025, pesquisadores registraram os primeiros filhotes da temporada reprodutiva nas montanhas de Simonésia e Manhuaçu, em Minas Gerais — um sinal positivo em meio ao cenário preocupante.
Principais Ameaças ao Muriqui do Norte
Diversas pressões se combinam e se potencializam:
Desmatamento e Fragmentação
A Mata Atlântica já perdeu mais de 85% da sua cobertura original. O que resta está fragmentado em ilhas de floresta separadas por cidades, pastagens e lavouras. Grupos isolados não trocam genes entre si, o que aumenta a endogamia e reduz a capacidade de adaptação da espécie.
Febre Amarela
Epizootias de febre amarela mataram grupos inteiros de muriquis nos últimos anos. A espécie não tem resistência natural ao vírus, e surtos em primatas silvestres indicam circulação ativa do vírus nas florestas.
Eletrocussão
Fios de alta tensão nas bordas das florestas matam indivíduos que tentam se deslocar entre fragmentos. É uma causa de morte evitável com adaptações simples nas redes de distribuição de energia.
Incêndios e Mudanças Climáticas
Queimadas, intensificadas pela seca e pelas mudanças climáticas, destroem rapidamente habitats que levaram décadas para crescer.
Caça
Embora reduzida em relação ao passado histórico, a caça ainda ocorre em áreas remotas com fiscalização insuficiente.
O que está sendo feito pela Conservação?
O ICMBio mantém um Plano de Ação Nacional específico para o muriqui do norte, com metas de monitoramento, pesquisa e conectividade de habitats. O Muriqui Institute of Biodiversity realiza pesquisas de longo prazo e programas de educação ambiental nas comunidades do entorno das florestas.
A translocação de indivíduos entre fragmentos isolados é uma das estratégias em teste para aumentar a diversidade genética. Em 2026, muriquis do norte foram levados ao Parque Estadual do Ibitipoca, em Minas Gerais, como parte de um programa de reforço populacional.
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Perguntas Frequentes sobre o Muriqui do Norte
O muriqui do norte é o mesmo que muriqui do sul?
Não. São espécies distintas. O muriqui do norte (Brachyteles hypoxanthus) ocorre em MG, BA, ES e RJ. O muriqui do sul (Brachyteles arachnoides) ocupa SP, PR e parte do RJ.
O que significa “muriqui”?
A palavra vem do tupi e pode ser traduzida como “povo manso da floresta”, “gente tranquila” ou “gente que bambaleia”. A etimologia exata ainda é debatida.
Quantos muriquis do norte existem hoje?
Estimativas apontam entre 1.000 e 1.300 indivíduos em vida livre. É uma população muito pequena para garantir a sobrevivência a longo prazo sem intervenção humana ativa.
O muriqui do norte é protegido por lei?
Sim. A espécie está incluída na lista oficial de animais ameaçados do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, sendo protegida pela legislação brasileira.
Por que o muriqui do norte tem mãos em forma de gancho?
É uma adaptação à braquiação — o modo de locomoção em que o animal se balança entre galhos pelos braços. Mãos em gancho permitem agarre rápido e eficiente sem esforço muscular intenso.






